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domingo, 10 de outubro de 2010

ENTRE LÁGRIMAS E RISOS

Ensaio de Vieira sobre o nascimento da comédia grega e suas implicações na política brasileira contemporânea


Risos de Demócrito & Lágrimas de Heráclito

Num texto escrito pelo Padre Antônio Vieira, fruto de uma investigação para resolver um problema proposto pelos cardeais da academia romana, no ano de 1674, foi discutido o seguinte argumento: o mundo é mais digno de lágrimas ou de risos, e qual dos dois filósofos foi mais prudente, Heráclito que chorava sempre, ou Demócrito que ria sempre? Para este problema coube ao Padre Antônio Vieira defender Demócrito e seus risos, enquanto o Padre Jerônimo Caetano, também da companhia de Jesus, defendeu Heráclito e suas lágrimas.
Assim, coube, tanto a Antônio Vieira como a Jerônimo Caetano, defender os opostos, sobre os quais se instaurou a problemática. Ambos apresentaram suas conclusões, defendendo as posturas dos filósofos em questão, e argumentado sobre um pano de fundo: o mundo é mais digno de risos ou de lágrimas. Nesse sentido, a proposta deste ensaio é discutir, inicialmente, as conclusões intrigantes e provocantes de Antônio Vieira para, mais tarde, relacioná-las com o nascimento da comédia e da política na Grécia e suas repercussões na modernidade.
Inicialmente, Antônio Vieira classifica as possíveis expressões de choro: choro com lágrimas, choro sem lágrimas e choro com risos. Sendo que chorar com lágrimas é chorar com dor moderada, chorar sem lágrimas é chorar com grande dor, chorar com risos é chorar com dor suma e excessiva.
Assim, compreende Vieira, a dor excessiva faz rir enquanto a dor moderada leva às lágrimas. Parece contraditório, mas a recíproca é verdadeira: a alegria excessiva faz chorar, portanto, a tristeza excessiva, pode fazer rir. “Pois, se a excessiva alegria é causa do pranto, a excessiva tristeza, por que não será causa do riso?” (VIEIRA, 1679, p p 31, 32. v. XII). Sendo assim, o riso de Demócrito significava ironia do pranto, pois ria ironicamente, sendo seu riso nascido de seu pranto e de uma tristeza.
Os olhos não dão conta de desafogar a alma, por isso, recorre o homem a outros mecanismos, como as mãos. Sendo comum ao chorar, bater as mãos. Ora, se as mãos são utilizadas ao chorar por que a boca não seria? Heráclito chora com os olhos, Demócrito com a boca. Entre risos e lágrimas, cabe uma outra compreensão: Heráclito chorava da miséria humana, Demócrito ria da ignorância. Mas, a ignorância é a expressão da miséria, portanto, ria Demócrito também da miséria humana.
A relação da miséria com a dor é estreita, por isso, foi necessário separar a miséria do que lhe é próprio, a dor. O fizeram com louvor no nascimento da comédia. Tiraram sua base real, pois, na comedia, não se ri da miséria, mas de um faz de conta, de uma ficção que representa a miséria, mas não é diretamente miséria. Na comédia, não se veem miseráveis e suas misérias que, na vida real, provocam tristezas. Mas então o que se vê? Representações, simulações das misérias reais, e, por serem simulações, provocam risos.
Nesse sentido, Heráclito ao chorar torna-se capaz de persuadir mais fortemente, pois lágrimas sensibilizam, enquanto risos provocam zombarias e indiferença. Portanto, Heráclito desperta sentimentos tais como esperança, enquanto Demócrito desperta sentimentos outros como apatia. “Com muito mais causa Demócrito, porque ria sempre, se fazia ridículo, e, zombando do juízo dos outros, expunha o seu a zombaria”. (VIEIRA, 1679, p 36).
Diante dessas reflexões, faz o Padre Antônio Vieira uma indagação: “Que esperança, que lugar pode ter neste mundo o riso, se todo mundo chora e ensina a chorar?” (VIEIRA, 1679, p 37). Qual o lugar do riso, qual reflexão pode ser feita a partir dessa expressão? De que forma o riso pode ser levado a sério? Ao partir da reflexão de que a excessiva alegria leva ao choro, abre-se espaço para compreender como verdade o oposto: a excessiva tristeza leva ao riso. Nesse sentido, diz Vieira: “Aqueles mesmos que mais se riem por fora mais choram por dentro”. (VIEIRA, 1679, p 38). Assim, Demócrito com seu riso demonstra tristeza excessiva, que ultrapassa as lágrimas e o cessar das lágrimas, desembocando no riso.


A Organização da Polis e da Comédia Grega

No século VIII a.C., o comércio faz ressurgir a polis grega terminando com o isolamento das aldeias e oportunizando uma nova forma de organização da vida. O espaço mais cobiçado passa a ser a Ágora (praça pública), local em que todos os homens, cidadãos, discutiam os rumos da vida na cidade. A política nada mais é do que a ação do homem na cidade, portanto, o termo ultrapassa a compreensão obtida na atualidade que entende o termo dentro da ação do homem público frente as demandas da sociedade. A política grega era feita por todos os homens nas suas ações diárias, porém, discutidas somente por homens livres, portadores de títulos de cidadãos.
Nesse momento o caos da mitologia dá lugar à ordem do kosmos (mundo), estabelecido pelo logos (palavra). Portanto, o uso da razão (lógica) é que passou a direcionar a vida grega e não mais a crença em deuses e mitos. Assim, a filosofia se desenvolveu na medida em que se desenvolveu a democracia grega (talvez a filosofia tenha desenvolvido a democracia grega), pois nela o homem pôde se propor a discutir a cidade, a religião, a moral e a vida.
Os homens passaram a discutir os rumos da vida. A partir desse momento os eventos sociais ganharam significativa importância. Os dramas humanos passaram a ter a necessidade de encontrar espaço na cidade, porém, sem o poder dos mitos de outrora. Nesse sentido, tornam-se espetáculos para arte, ganham um lugar específico na vida dos gregos: o anfiteatro. Nele se dramatiza a vida e a vida cessa de ser dramatizada no fim do espetáculo. Cabe na vida a lógica da organização da polis pela palavra (logos). Na arte couberam os devaneios, impulsos, paixões...
Ora, então as lágrimas de Heráclito, ou os risos de Demócrito, escapam o cessar do espetáculo, continuam nas ruas e, por isso, incomodam. A única forma de conviver com tais disposições dá-se na negação da relação com a realidade. Fingir que são expressões perdidas, desvinculadas e desconexas da vida. Somente assim pode-se conviver com tais feridas que não cicatrizam e sangram sem cessar. Nessa reflexão pode-se ver o nascimento da comédia na polis grega, como uma necessidade imposta pela condição humana.
A defesa do Padre Antônio Vieira sobre a superação dos risos de Demócrito em relação às lágrimas de Heráclito mostra o quanto a dramatização voltada para o humor, muitas vezes, supera em dor a dramatização que leva às lágrimas. Portanto, a comédia tornou-se o mecanismo através do qual sentia sua dor com o endurecimento necessário para continuar a vida na polis lógica e racional que, não admite emoções tais como a mitologia admitia.
Nessa perspectiva, a comédia grega é a simulação da dor mais intensa vivenciada na arquibancada do anfiteatro. Rir da organização da polis no anfiteatro é rir numa dosagem mais suportável que Demócrito, pois este ria da própria realidade. Assim, o espaço e o tempo restrito da comédia na polis não permitia o desvanecer dos cidadãos, tal como Demócrito que ria sempre e em todo lugar.
Para o Padre Antônio Vieira, a comédia tirou a miséria da vida real e a transportou para o palco. Ora, a miséria real não deve provocar risos, os homens não podem rir da desgraça humana, tal como ela é, mas podem rir se não for propriamente a desgraça, mas a simulação da desgraça. Nesse sentido, a comédia permite o riso por não se tratar das dimensões reais dos problemas e dramas humanos, mas do personagem que, não necessariamente o sofre. Se não o sofre torna-se permitido rir. Porém, no fundo estamos rindo da mesma desgraça, somente mudamos sua roupagem.


Reflexões sobre Política no Brasil

Segundo Antônio Vieira, os risos de Demócrito denunciam a falta de perspectiva que temos com as soluções propostas pelos lideres políticos. Rir significa perder a esperança, não acreditar na mudança. Nesse sentido, a inserção, desde a Grécia Antiga, do riso desmedido e escancarado de Demócrito denuncia a impossibilidade de ver uma perspectiva solucionadora para a vida social. Tal riso invade primeiramente a própria vida na polis por Demócrito, mas encontra seu apogeu no teatro grego. O próprio Aristóteles dedica uma obra para discorrer sobre a Comédia, depois de mostrar a catarse da tragédia. O livro é anunciado pelo próprio Aristóteles ao discorrer de forma inicial e superficial sobre a tragédia, porém, não se sabe da conclusão e nem do paradeiro do mesmo. O filme O nome da Rosa do diretor Jean Jacques Annaud, baseado no livro de Umberto Eco se propõe a discutir a existência do texto de Aristóteles.
Voltando a questão proposta para Antônio Vieira e Jerônimo Caetano, podemos adapta-la ao contexto vigente, especificamente ao processo eleitoral brasileiro de 2010. A questão persiste: “O mundo é mais digno de lágrimas ou de risos?” Contextualizando-a: “A política brasileira é mais digna de lágrimas ou de risos?”
Se remetermos as duas últimas décadas da história política do país ao anfiteatro grego, teríamos que tipo de dramaturgia: tragédia ou comédia? Entendendo que somente na arte podemos nos dar ao choro ou riso, o anfiteatro torna-se o local único para experimentarmos e expressarmos tais emoções, apesar de que aqui não passa de um simulacro.
Nós brasileiros diante desse “espetáculo” político contemporâneo seriamos tomados por um choro emocionado que expressa a felicidade diante de práticas com as quais nos identificamos e nos sentimos amparados em nossas misérias sociais? Ou o choro denunciaria a infelicidade decorrente de uma política omissa e corrupta, cuja reação expressa um sentimento consciente de revolta que ainda nos arrasta à ação? Ou ainda riríamos debilmente, como consequência de um processo alienatório que nos castra a percepção real dos acontecimentos e nos priva da ação? Ou então o riso seria nosso último recurso que denuncia a total impotência humana frente aos acontecimentos políticos, diante dos quais cabe como única expressão o riso, como dor mais profunda. O qual muitas vezes é causa e consequência da comédia realizada pelos próprios candidatos em suas campanhas, expressando que até eles mesmos tem na essência dos seus discursos o mesmo riso de descrédito de Demócrito.
Nesse sentido, o riso nos leva a uma omissão irônica, onde a prática se restringe ao deboche e não a mudança concreta. Por outro lado, o choro nos traz a consciência e a esperança que nos remete a mudança. Portanto, choremos a política brasileira, certos de que nosso choro nos trará a consciência necessária para mudarmos o curso do nosso país.
Estamos mais perto dos risos de Demócrito ou do choro de Heráclito? Quando um comediante é eleito com votação recorde o que podemos esperar, o que podemos concluir? Tiririca nos faz rir e nosso riso custará nossa esperança. Ele escapa do palco para a vida, para a polis moderna e sobre ele lançamos nossa dor mais profunda, nosso riso, que é no fundo, conforme o Padre Antônio Vieira, chorar com a boca. Pois, se podemos chorar de felicidade, podemos também rir de tristeza.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O Meu Olhar que Retorna como Outro Olhar sobre Mim e me Desestabiliza

Apesar de minha leitura inicial de Merleau-ponty, ouso fazer alguns apontamentos que os julgo importante. Sigo a proposta apresentada pelo professor Marcos Müller, escrevendo um texto livre e desprovido de qualquer “intencionalidade” acadêmico-científica (refiro-me ao rigor técnico). Ao contrário, ouso tomar uma parte do texto de Visível e Invisível como significante, sem descartar que não vejo o texto unicamente com o meu olhar, nem o descontextualizo, mas observo com olhares outros que, em alguma medida, também são meus. Trato das conversas com colegas sobre as aulas no decorrer do curso, as próprias aulas e as leituras realizadas para a disciplina.

Almejo refletir sobre um outro olhar que retorna como sendo o olhar sobre o vidente e, nesse sentido, segundo Lacan, a pulsão freudiana como tal outro olhar. Para tanto, cabe compreender em Merleau-ponty, na medida em que, de alguma forma, se confirma a reflexão de Lacan a cerca da existência da pulsão na filosofia merleau-pontyana, as hipóteses levantadas no curso resultado de todas as discussões que nos cercaram durante este semestre. Lembro que estou arriscando olhares, tão somente arriscando.

Para Sartre, a consciência espontânea, por sua intencionalidade, que em sua transcendência encontra os objetos, cujos quais estabelece relações, percebe que o outro é também objeto até que o limite do encontro entre o olhar do vidente e o olhar de um outro vidente, que deixa de ser objeto por sua vidência, se encontram, denunciando a existência de um outro olhar, e de um outro vidente. O olhar de um vidente denuncia aspirações que não lhe pertence e, da mesma forma, o outro vidente, que até antes do cruzamento do olhar era objeto, também percebe aspirações que não lhe pertence. Enquanto Merleau-ponty, evidencia o olhar que não é do outro, mas um outro olhar de mim mesmo que retorna estranhamente. Essa compreensão que faz Lacan remeter-se a existência da pulsão freudiana em Merleau-ponty, diferenciando-o significativamente de Sartre. Não no sentido de compreender o olhar do outro que me arrebata, mas de vislumbrar um outro olhar de mim mesmo que me desestabiliza. E sobre esse outro olhar que retorna é que segue essa tímida reflexão.

O visível é tudo aquilo que o vidente é capaz de apalpar pelo olhar, dentro do seu campo fenomenológico. Porém, Merleau-ponty entende que os objetos existem independente de um eu perceptivo. O meu corpo está no mundo e não representa por um eu a priori o mundo. Nesse sentido, um certo panteísmo merleau-pontyano pode ser constatado. Assim, o invisível, por sua vez, da seguimento ao visível. Conforme Merleau-ponty, a compreensão mais evidente do invisível está, a meu ver, na reflexão que ele empresta de Proust: “Ninguém foi mais longe que Proust ao fixar as relações entre o visível e o invisível na descrição de uma idéia que não é o contrario do sensível, mas que é o seu dúplice e sua profundidade” (Merleau-ponty, p. 144). Nesse sentido, o invisível ganha conotação que não pode estar relacionada com qualquer idealização, pois não está na cisão do sensível, mas ao contrário, no seu aprofundamento. Porém, para além do Visível e Invisível, encontro na página 135 um texto que pretendo discutir. Um único parágrafo que inicia na página citada e se estende até a página seguinte (136).

O texto inicia refletindo a relação do vidente com o visível, supondo uma certa estranheza na aderência do vidente e do visível. Essa estranha aderência ocorre quando algo visível volta-se sobre o todo visível, ou é envolvido por ele, ou ainda, por intercambio dele torna-se uma visibilidade em si. Essa visibilidade que não pertence nem ao corpo nem ao mundo é como um espelho em frente de outro espelho, produzindo imagens que se estendem ao infinito e que não podem ser se não replicas uma da outra.

Cabe perguntar o que encontramos de fato com essa estranha aderência do vidente e do visível. Há visão, tato, quando certo visível, certo tangível se volta sobre todo o visível, todo o tangível de que faz parte, ou quando de repente se encontra por ele envolvido, ou quando entre ele e eles, e por seu intercâmbio, se forma uma Visibilidade, uma Tangibilidade em si, que propriamente não pertence nem ao corpo como fato nem ao mundo como fato – tal como dois espelhos postos um diante do outro criam duas séries indefinidas de imagens encaixadas, que verdadeiramente não pertencem a nenhuma das duas superfícies, já que cada uma é apenas réplica da outra, constituindo ambas, portanto, um par mais real do que cada uma delas. (Merleau-ponty, p. 135)

Nesse sentido, pode-se dizer que a algo de estranho na observação, como se o vidente, em algum momento perdesse, ou ainda, se perdesse no seu ofício de olhar, não inteiramente, pois caso assim fosse, ou vidente ou visível deixariam de existir. Há algo que escapa a visão, que não pertence nem ao corpo, nem ao mundo. O exemplo de Merleau-ponty para discutir esse impasse entre o vidente e o visível está numa metáfora apropriada: dois espelhos de frente um para o outro refletindo imagens indefinidas, que são réplicas uma da outra. Portanto, não se sabe de um inicio, pois são copias das imagens refletidas e não da superfície. Um espelho na frente de outro espelho reflete sua própria imagem, assim, conforme Merleau-pont, o vidente vê a si mesmo por estar preso no que vê, no espelho, ou melhor, nas coisas vistas. E é exatamente estar preso nas coisas que viabiliza o sentir das coisas, o ser visto por elas. E é por essa visão que retorna que há viabilidade de sentir o sofrimento das coisas. Dessa forma, conclui dizendo que os pintores, muitos deles, sentem-se observados pelas coisas.

Existe, segundo Merleau-ponty, um certo narcisismo no olhar que, conforme já vimos, possibilita o sofrer pelas coisas. Mas há um segundo sentido para o narcisismo, mais profundo, que é não ver de fora, mas ser visto de dentro, existir nas coisas, migrar para elas. Assim, vidente e visível se mutuam de forma que não mais se saiba quem vê e quem é visto. Discute-se nessa reflexão compreender que fenômeno pode ser este que emerge sem origem, que não se sabe de onde vem. Na medida em que Merleau-ponty avança nessa reflexão, Lacan percebe maior possibilidade de relação com a pulsão freudiana.

Percebo que há um vazio no fantasma merleau-pontyano, uma falta, algo a preencher, que viabiliza uma busca infinita a partir de significantes. Tal qual as imagens refletidas no espelho, que produzem cópias e cópias, tendendo ao infinito. Portanto, Merleau-ponty caminha sobre um chão que o engole e o mistura as substâncias do terreno sobre o qual caminha. E desse envolvimento vislumbra sua filosofia.

O texto que aqui será exposto, penso ser definitivo para a discussão proposta, apesar de não conseguir encontrar o local exato da reflexão da qual Lacan parte.

(...) É a essa Visibilidade, a essa generalidade do Sensível em si, a esse anonimato do Eu-mesmo que a pouco chamávamos carne, e sabemos que não há nome na filosofia tradicional para designá-lo. A carne não é matéria, no sentido de corpúsculos de ser que se adicionariam ou se continuariam para formar os seres. O visível (as coisas como meu corpo) também não é não sei que material “psíquico” que seria, só Deus sabe como, levado ao ser por coisas que existem como fato e agem sobre o meu corpo de fato. De modo geral, ele não é fato nem soma de fatos “materiais” ou “espirituais”. Não é, tampouco, representação para um espírito, um espírito não poderia ser captado por suas representações, recusaria essa inserção no visível que é essencial para o vidente. A carne não é matéria, não é espírito, não é substância. Seria preciso para designá-la o velho termo elemento, no sentido em que era empregado para falar-se da água, do ar, da terra e do fogo, isto é, no sentido de uma coisa em geral, meio caminho entre o indivíduo espácio-temporal e a idéia, espécie de princípio encarnado que importa um estilo de ser em todos os lugares onde se encontra uma parcela sua. Neste sentido, a carne é um elemento do Ser (...) (Merleau-ponty, p. 135,136)

Aqui evidencia-se uma percepção de Merleau-ponty que se torna apropriada para ocasião, a existência de um Eu-mesmo anônimo. O que também foi chamado de carne. O que vem a ser a carne? Ou ainda o que vem a ser um Eu-mesmo anônimo? Um Eu que me é anônimo, anônimo a mim mesmo? Uma carne que não é matéria de nenhuma natureza, nem material e nem espiritual? Segundo Merleau-ponty a carne é um elemento, um elemento do ser. Nos atentemos as impossibilidades da carne: não é espiritual, nem material, nem uma substância. É um elemento, mas de que material psíquico é composto? Paira uma estranheza, uma indefinição. O que poderia defini-la de forma mais esclarecedora seria a comparação com os lábios que, em contato, deixam pedaços de carne quando se tocam, uma parte noutra. Assim, poderia ser entendido a carne e o mundo.

Poderia estar na carne a ligação da filosofia merleau-pontyana com a pulsão freudiana? Penso que somente nela poderia existir essa possibilidade. Essa indefinição poderia, em alguma medida, ser associada ao inconsciente? Penso encontrar nessa impossibilidade e indefinição a única possibilidade de interpretação a cerca da pulsão como vazio e, nesse sentido, o Eu-mesmo anônimo como passividade. Mas ainda arrisco palavras ao vento.

Conforme Merleau-ponty, a arte pode nos conduzir à estranheza. Assim, recorro à poesia de Chico Buarque como expressão desse olhar que, em alguma medida, não se sabe qual, não está no mundo nem no vidente, não se sabe se o vidente observa ou é observado. Tal poesia especula e questiona a indefinição de algo que existe, que se percebe entre as coisas, nas coisas e mesmo no vidente, mas não se sabe o que. Uma estranheza inquietante, desconfortante, impossível de ser impedida de existir. Algo que escapa todas as formas de controle, inclusive da soberania da razão.

Particularmente, percebo tal desconforto ao ouvir a música. Sinto uma sensação de que há algo que não se explica. Talvez seja essa a razão da busca de um filósofo que pensa poder atingir a verdade. Não diferente deste, um artista que, por meio da arte, tenta dar sentido a este inexplicável. Algo que na Clínica Lacaniana talvez possa ser conhecido como objeto pequeno “a”.

O Que Será

Chico Buarque

O que será que será

Que andam suspirando pelas alcovas

Que andam sussurrando em versos e trovas

Que andam combinando no breu das tocas

Que anda nas cabeças, anda nas bocas

Que andam acendendo velas nos becos

Que estão falando alto pelos botecos

Que gritam nos mercados, que com certeza

Está na natureza, será que será

O que não tem certeza, nem nunca terá

O que não tem conserto nem nunca terá

O que não tem tamanho

O que será que será

Que vive nas ideias desses amantes

Que cantam os poetas mais delirantes

Que juram os profetas embriagados

Que está na romaria dos mutilados

Que está na fantasia dos infelizes

Que está no dia-a-dia das meretrizes

No plano dos bandidos, dos desvalidos

Em todos os sentidos, será que será

O que não tem decência, nem nunca terá

O que não tem censura, nem nunca terá

O que não faz sentido

O que será que será

Que todos os avisos não vão evitar

Porque todos os risos vão desafiar

Porque todos os sinos irão repicar

Porque todos os hinos irão consagrar

E todos os meninos vão desembestar

E todos os destinos irão se encontrar

E o mesmo Padre Eterno que nunca foi lá

Olhando aquele inferno, vai abençoar

O que não tem governo nem nunca terá

O que não tem vergonha nem nunca terá

O que não tem juízo

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Convite ao Divã

Uma Perspectiva Existencialista

Shakespeare estava certo ao dizer que falar alivia dores emocionais. Mas a ideia não é nova. Desde quando a palavra foi inventada, ela mesma tem sido utilizada para poder transferir de alguma forma as emoções entranhadas em nosso ser para fora, para o mundo. As vezes penso que temos mais necessidade de falar, ou de sermos ouvidos, do que de sermos compreendidos. Apesar disso, muitas vezes ficamos sem palavras, tantas outras, requerem sacrifícios para poder encontrar a palavra certa. Diante dessa necessidade de falar, escapam palavras que não deveriam ser ditas. Nesse momento, concluímos: – Falei demais – Freud diria: – Ato falho. Algumas vezes as palavras não exprimem exatamente o que sentimos, mas mesmo assim nos empenhamos em encontrar a codificação correta de nossas emoções nas palavras, porém, sem sucesso, apenas exprimimos gemidos, o choro ou o riso, que também são formas de dizer. Talvez neles encontremos a catarse que expressa o que as palavras não dizem.
Num texto de Marx encontramos uma afirmação bastante propicia para nosso momento, referindo-se ao surgimento do mundo da linguagem: “(...) a linguagem só aparece com a carência, com a necessidade dos intercâmbios com os outros homens”. Falar sozinho, pelas paredes, evidencia tamanha angustia, tal qual a percepção de ver as palavras voltarem e terem de ser engolidas. Por conta disso, muitos de nós preferimos um Deus para o qual as palavras são dirigidas. Desejamos falar para alguém, desejamos atenção nas nossas palavras. Ainda conforme Marx, referente às primeiras palavras que visavam estabelecer comunicação entre os homens, encontramos a expressão: “sopro de ar agitadas”. Penso que aqui Marx quis dizer que antes das palavras tínhamos tentativas de formular palavras, mas eram expressões de interioridades, anteriores ao desenvolvimento da cultura, tal como a temos hoje. Mesmo aqueles que por razões naturais ou acontecimentos traumáticos foram impedidos de verbalizar, encontraram outros caminhos, como a linguagem de sinais para poder dizer algo ao mundo. A verdade é que precisamos nos comunicar, de alguma forma compartilhar o que sentimos.
Nas Epopéias, os heróis compartilhavam suas virtudes esbravejando suas conquistas, os homens comuns tendiam a se render com clemências e suplicas. Nas orações os judeus temiam dizer sobre suas fraquezas por considerarem seu Deus, ao qual eram dirigidas as palavras, temido. Portanto, preferiam curvarem-se como miseráveis humanos e calarem-se. Os cristãos encontravam conforto e redenção no seu Cristo, por este ser pacífico e acolhedor. Para ele podiam chorar, lamentar, suplicar, pedir. Penso que a religião colocou o primeiro divã sobre a terra, e teve sua serventia. Mas sobre tal afirmação, nenhuma outra religião superou a cristã. O cristianismo aproximou Deus dos homens em Cristo, culpou os homens de seus pecados e os enfraqueceu. Ao mesmo tempo ofereceu redenção por um ato de pura bondade divina no sacrifício da cruz. O resultado desta crença está presente em nossos dias: o homem convencido de sua impotência deposita em Cristo sua esperança. Assim, o cristianismo cria o problema e a solução.
Parece-me que Deus não deu conta ou não quis investir esforços para compreender os dramas humanos. Não sei ao certo se a religião calou Deus por conta de seus dogmas ou Deus não mais se sente representado nela. Estou mais próximo de dizer que a religião inventou Deus a sua imagem e semelhança, para seus interesses, condicionando uma fala específica à Deus, quando Deus mesmo ainda não foi encontrado, muito menos sei se será um dia. Mas essa lacuna que se tornou cratera, nessa solução que se tornou também problema, nesse espaço em que se pode pensar que Deus não existe, mesmo que culpando por tal pensamento, pode-se também encontrar desespero, desconforto e desamparo. Nesta fenda as palavras não passam, não retornam, se perdem. Nela, a angustia é a chama que nos consome e aumenta nossa sensação de solidão. Quando nosso grito dirigido ao mundo não ecoa, a rotina tapa os ouvidos dos outros às nossas palavras. Quando Deus torna-se um vácuo que faz desaparecer as palavras angustiantes de nossa existência, ou mesmo pelo rigor doutrinário da religião que não nos deixa a vontade para dizer tudo o que pretendemos. A ausência de algum Dom não as transforma em arte, pois ao menos o poeta tem o que dizer e a quem dizer.
Na falência desse divã divino erigido pela religião, a contemporaneidade exigiu outro divã, menos vertical e mais horizontal, mais humano. No olhar da religião, mais insignificante, grotesco e presunçoso. Particularmente, vejo como um espaço para poder dizer o que Deus não quis ouvir, o que o mundo, ocupado demais, não parou para escutar, fingiu até mesmo não ver: as angustias acumuladas e cada vez mais empurradas para os porões mais sombrios e gelados da alma humana. Desejoso por querer compreender a existência, não fixá-la, nem desenhá-la, muito menos idealizá-la. Não pretende dizer como a vida tem de ser, mas almeja compreender a vida como ela é, como ela pode ser. Quer se colocar como espaço de não julgamento, permitir que nele se respire confortavelmente, levemente. Que nele se diga qualquer coisa sem medo, sem culpa. Quer ser não apenas confortável para o corpo, mas sobretudo, confortável à alma, se é que podemos chamar assim esse acúmulo de experiências distintas que constroem em nós uma subjetividade. E como poderia proporcionar tal nível de cumplicidade com as mazelas humanas se não fosse ele também humano? A forma mais apropriada para nos referirmos a esse novo divã está no título de um livro de Nietzsche: Humano Demasiado Humano. Humano compreendendo humanos
Depois de Freud tantos outros surgiram, tantas outras técnicas, olhares, compreensões que se somaram e que ousaram dizer que é possível a cura pela fala. Não a fala dirigida a um suposto Deus que nos faz esperar respostas as quais dependem de uma crença para retornarem e, muitas vezes, a crença não é suficiente. Nosso divã não é tão alto, nem tão perfeito, mas é tão humano quanto eu e você. Escapa o determinismo de certas cientificidades que pretendem ser absolutas. Dá as mão à filosofia e caminha numa perspectiva um tanto heideggeriana, sempre a quem do objeto que visa compreender e sabe que nunca o compreenderá totalmente, pois caso um dia tenha tal pretensão, enterrará o movimento dinâmico, próprio da subjetividade. Por essa razão, continuará assim, perseguindo os rastros desse humano sempre na frente.
Dessa forma, fica entre aberta a porta e lançado o convite para nosso Divã Existencialista. Ficam abertos nossos olhos para a existência humana que se dá, muitas vezes, em condições adversas. Nosso empenho dedicado para fazer emergir o real desejo humano e fazer dele um projeto existencial, cujo alvo mais importante é sempre a felicidade.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Distância Real, Proximidade Virtual

A era tecnológica trouxe muitas vantagens. Imagine um pai para ter noticia de seu filho antes da invenção do telefone. Nada podia fazer senão esperar demoradas noticias por informantes que por algum motivo, passariam por perto da casa daquele pai angustiado, ou mesmo o retorno do filho. Depois do telefone, bastou ligar e ter a noticia, ouvir a voz e ficar mais calmo. Hoje não temos somente o telefone, temos a Internet e com ela todas as vantagens de, não apenas ter a noticia, ouvir a voz, mas, sobretudo, ver a imagem em tempo real da pessoa distante.
Porém, venho observando o comportamento dessa nova geração, tecnológica, informatizada, cuja dimensão mais própria da vida é um simulacro. E tenho percebido um fenômeno peculiar nos tempos modernos. A proximidade virtual leva, conseqüentemente, ao distanciamento real. As relações humanas, no tocante aos seus afetos, as suas emoções, mostram-se seguras para as próprias pessoas na dimensão virtual e inseguras na dimensão real.
A primeira hipótese que sou levado a elaborar está relacionada com a dificuldade que temos em encarar nossos sentimentos na possibilidade da frustração ao depositarmos nossos afetos em outras pessoas, muitas vezes, totalmente diferentes de nós. Esse medo da rejeição, da dor, da perda, nos leva a escolher caminhos mais fáceis, como aceitar um marido frio, enquanto se sublima esse sentimento do marido para o protagonista da novela. Ao invés do risco de uma paixão avassaladora, um filme que cause as mesmas sensações, porem, numa dosagem bem menor. Ao invés de uma pessoa real, com suas falhas, defeitos, pecados. Se torna melhor escolha um namoro virtual, pois nele não apenas podemos nos dar ao luxo de não ver a lama da alma, mas, sobretudo, não mostrar a lama da nossa alma.
Assim, o mundo atual encontrou uma forma mais elaborada de não fazer sofrer. Nos tornamos, nesse sentido, pessoas que na vida concreta, escondemos com medo nossas feridas, enquanto que na simulação virtual nos deixamos conhecer, mas somente na medida em que não nos trouxer dor. O que fica evidente é o fato de que não somos seres totalmente virtuais, somos também reais. Portanto, da mesma forma que podemos estar geograficamente distantes e virtualmente próximos, podemos estar geograficamente próximos e emocionalmente distantes.

O Eterno Retorno como Juízo da Vida

Artigos, Poesias, Contos, CrônicasA idéia do termo Eterno Retorno desenvolvida por Nietzsche, considera a repetição constante do todo uma condição eterna, ou seja, todas as coisas retornam eternamente. Assim, viveremos a mesma vida, com toda a dor e felicidade, eternamente. Tudo o que existiu, existirá outra vez, a história se repetirá, as múltiplas formas de organização da matéria se repetirão, pois as forças são eternamente ativas. A vida, para Nietzsche, se constitui como vontade de potência e são essas energias potencializadas que se repetem eternamente, pois a eternidade é a condição do ciclo da ação das forças.
Dessa forma, Nietzsche concluiu que o Eterno Retorno só pode ser compreendido como um circulo eterno de manifestação de forças, sem jamais chegar a um momento de repouso, sem jamais chegar a um equilíbrio, mas seus movimentos são de igual grandeza para cada tempo. Assim, todos os instantes da vida retornarão, cada dor, cada alegria, cada tristeza, cada prazer, enfim, todos os momentos.
A partir dessa compreensão, Nietzsche lança a reflexão que se deve fazer diante da perspectiva de se viver o Eterno Retorno, pois diante dele se percebe as forças ativas e reativas que dão origem a moral.
O que Nietzsche nos mostra com o pensar na perspectiva do Eterno Retorno é que cada momento deve ser vivido com toda a intensidade a fim de que esse momento se torne eterno. Amar de tal forma esse momento, desejá-lo de tal forma que o desejo deve querer viver outra vez esse instante. Assim, desejar viver outra vez um momento é afirmar a vida e não desejar viver outra vez o momento é negá-la. Podemos odiar ou amar a vida ao penarmos na sua repetição constante. Imaginá-la repetindo-se pode nos causar horror ou alegria e esses sentimentos vão nos posicionar como fortes ou impotentes diante da vida.
Para muitos tal reflexão é angustiante e inaceitável, porém, ao pensarmos na vida de Nietzsche, perceberemos a estreita relação com sua filosofia. Perdeu o pai cedo, teve uma saúde debilitada e por enlouqueceu ainda na maturidade, loucura da qual nunca se recuperou, levando-o ao óbito. Dizem que sua loucura foi resultado de uma DST, outros dizem que foi um problema fisiológico, enquanto outros diziam que foi sua própria filosofia. Mas, o importante não é definir o motivo e sim perceber que Nietzsche amava a vida com todas as sua inquietações, instabilidades e sofrimentos. É dele a frase: “Porque, note-se bem: foi precisamente nos anos da minha mais débil vitalidade que eu cessei de ser pessimista” (Nietzsche, Ecce Homo).

quarta-feira, 4 de março de 2009

Vida e Teoria de Adam Smith

A VIDA DE ADAM SMITH

A data do nascimento do filósofo e economista escocês Adam Smith é inserta. Segundo John Era, um de seus mais conceituados biógrafos, Smith nasceu em 5 de Junho de 1723. Hoje sabemos que a suposta data de nascimento é a data de batismo de Adam Smith, continuando inserta a data de seu nascimento. Sobre sua infância, pouco se sabe. A morte pré-matura do pai, poucos meses antes do seu nascimento estreitou os laços de afeto entre Smith e sua mãe, que perduraram até o fim de suas vidas (a mãe de Adam Smith morreu dois anos antes da morte de Smith, em 1788).
Após concluir seus estudos secundários em Kirkcaldy, foi admitido na Universidade de Glasgow, realizando estudos dos clássicos gregos, matemática, teologia e filosofia. O professor protestante Francis Hutcheson, uma das maiores expressões da Filosofia do Direito Natural, exerceu grande influência sobre Smith nesse período em que estudou na Universidade de Glasgow. Antes de concluir seus estudos em Glasgow, recebeu uma bolsa para estudar em Balliol College, Oxford. Aceitou o convite, porém, além de obter maior compreensão dos clássicos da literatura, sua experiência em Oxford, pouco contribuiu para seu pensamento, por conta do dogmatismo religioso presente na instituição.
Adam Smith, depois de concluir seus estudos, voltou à Kirkcaldy para iniciar sua vida no magistério, oferecendo cursos de inverno, de literatura inglesa. Sua reputação o levou ao cargo de professor de Lógica de Glasgow. Em 1752 Smith torna-se professor de Filosofia Moral de Glasgow, cargo que permaneceu sem interrupções até 1764.
Sua inserção na elite intelectual escocesa foi imediata. Dessas novas relações, surgiram importantíssimas amizades, dentre elas, destacamos a amizade de David Hume. Hume e Smith discutiram conceitos de filosofia e política, também trocaram cartas quando distantes até a morte de Hume em 1776. O empirismo de Hume influencia Smith a ponto de abandonar suas influências iniciais da Filosofia do Direito Natural de seu antigo professor Francis Hutcheson.
Em 1759 Smith publica Teoria dos Sentimentos Morais, fazendo parte de um ambicioso projeto que cominara no seu mais famoso livro A Riqueza das Nações (Inquérito sobre a Natureza e a Causa das Riquezas das Nações). Resultados das suas aulas de Filosofia Moral lecionadas na Universidade de Glasgow. Porém, um convite para ser tutor do jovem Duque de Buccleugh, faz com Smith deixe o cargo de professor de filosofia para ir à França. Na sua viagem acabou conhecendo Voltaire e reencontrou Hume em Paris. Na França Smith estudou com bastante entusiasmo os princípios do racionalismo liberal francês, que o influencia na produção de sua obra considerada a mais expressiva, A Riqueza das Nações.
Ao retornar para Kirkcaldy, passou cerca de seis anos inteiramente comprometido com a produção de A Riqueza das Nações. A obra, apesar de mudar o mundo acadêmico dos séculos XVIII, XIX e XX, não foi aceita com entusiasmo, por ter princípios do racionalismo francês na época das investidas de Napoleão. Adam Smith morreu aos 67 anos, em 17 de Julho de 1790, não vivendo para ver os efeitos surpreendentes de seu pensamento sobre o mundo pós A Riqueza das Nações. No último dia 17 de Julho, fez 218 anos da data da morte de Adam Smith. Hoje nos propomos a discutir a formação de seu pensamento e suas influências sobre o mundo pós Smith.

INFLUÊNCIAS SOBRE SMITH

Enquanto professor de Filosofia Moral da Universidade de Glasgow, Smith publicou Teoria dos Sentimentos Morais. O livro exalta a moral cristã, como a excelência da virtude. Para Smith, as relações humanas davam-se pela simpática dos sentimentos que, por meio da experiência, aprendemos a considerar importante, relacionando-os com os mesmos sentimentos encontrados nos outros. Dessa forma, simpatizamos com os outros a partir de uma relação de conveniência. Sendo que, somente a virtude cristã escapa a relação egoísta da conveniência para a relação altruísta do amor pelo outro sem a relação com o sentimento de quem ama consigo. Assim, percebemos na obra de Adam Smith as influências religiosas da Filosofia do Direito Natural do professor protestante Francis Hutcheson, como também dos anos de estudo em Glasgow e Oxford.
Porém, foi David Hume que exerceu grande influência sobre seu pensamento. Podemos ver claramente a influência de Hume nas suas duas grandes obras: Teoria dos Sentimentos Morais e A Riqueza das Nações. A primeira evidencia-se numa discussão filosófica sobre a construção dos sentimentos morais, sendo que estes surgem a partir da experiência. Para Smith, um homem que tem seu pai ainda vivo não se sensibilizará tanto com a morte do pai de alguém, quanto um homem que já presenciou a morte de seu pai. Nesse sentido, Smith mostra que os sentimentos morais surgem a partir da experiência. A segunda obra mostra de forma mais abrangente o empirismo de Hume. Para Adam Smith, todas as relações econômicas são relações de conveniência: “Não é da bondade do homem do atalho, do cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso jantar, mas da consideração em que eles têm o seu próprio interesse” (A Riqueza das Nações). Smith considerou os homens como resultado da experiência, mas precisamente da divisão do trabalho “Os homens de diferentes profissões, quando atingem a maturidade, não são, em muitos casos, tanto a causa como o efeito da divisão do trabalho” (A Riqueza das Nações). Assim, os homens tornam-se sujeitos nas relações determinadas pelas condições econômicas, evidenciando assim a relação da sua teoria com o empirismo de Hume.
Durante o período que Smith passou na França, intensificou seus estudos sobre o racionalismo francês iluminista de Descartes. A presença do cartesianismo francês ficou evidente já no primeiro capítulo de A Riqueza das Nações, pois Smith considera o princípio da razão e fala como essenciais para a propensão à troca, desenvolvida de forma lenta e gradual, possibilitadora da prática capitalista. Quando Adam Smith entende que a propensão à torça é resultado de princípios naturais como o raciocínio e a fala, ele considera o homem a partir de uma razão inata, portanto, sua relação com o cartesianismo mostra-se estreita. Mas ao considerar o homem nessa perspectiva, torna o desenvolvimento do capitalismo como sendo natural. O homem, por conta de elementos intrínsecos, torna o capitalismo parte de sua natureza.
Segundo o professor de economia Alcides Goularti Filho da UNESC (Universidade do Extremo Sul Catarinense), existe princípios de causalidade newtoniana na obra A Riqueza das Nações. Desde o título (do original: Inquérito sobre a Natureza e a Causa das Riquezas das Nações) até a divisão do trabalho, podemos perceber uma relação com a física newtoniana. A utilização desses conceitos deu dimensão científica requerida na época para discutir economia.

SMITH E O MUNDO CONTEMPORÂNIO

É impossível avaliar de forma precisa as contribuições do pensamento smithiano para o mundo que seguiu depois de suas obras. Suas contribuições iniciam quando Smith, por conta do racionalismo cartesiano e das influências da física natural de Newton, insere no bojo da academia a economia política como uma dimensão da ciência. Podemos concluir que foi Smith o pai da Economia Política. Assim, toda discussão posterior sobre economia, mesmo aquelas contrárias ao seu pensamento, encontraram espaço na academia por conta da perspicácia de Smith ao usar métodos considerados científicos para época com finalidade de estudar economia.
A propensão à troca como conseqüência de princípios naturais, possibilitou o embasamento teórico necessário para eliminar as críticas ao modelo liberal da economia mercantilista, acelerando o desenvolvimento do capital livre, necessário para mais tarde desenvolver o capitalismo como um processo considerado natural. Foi essa perspectiva da naturalização do capitalismo, tornando-o parte da condição natural e, portanto, seu desenvolvimento também passou a ser considerado como natural, que proporcionou maior aceitação do modelo liberal da economia capitalista. Dessa forma, pode-se pensar o capitalismo como sendo auto-regulador e um sistema sem contradições. Porém, na medida em que se estruturou, nos séculos posteriores, o capitalismo, ficou evidente sua contradição, gerando críticas ao pensamento smithiano. Marx, contrapôs Smith com evidências históricas das contradições da sociedade capitalista, que gera, por conta do acumulo de capital, exploração, pobreza, etc.
A teoria liberal de um Estado mínimo, sem interferência direta e consistente na economia foi possível de ser pensada após A Riqueza das Nações, pois a idéia da auto-regulação da economia descarta o controle do Estado. Podemos perceber a força do pensamento smithiano nas políticas de privatizações que ocorreram no Brasil nos últimos governos. As leis de oferta e procura, mais valia, lucro, são algumas das conseqüências do pensamento de Adam Smith no mundo contemporâneo, porém, não é certo dizer que Adam Smith pregava tais tendências do. Pois pensava que o capitalismo seria naturalmente regulado por conta dos princípios da natureza humana que o tornam possível.
Por fim, podemos citar o também professor de economia da UNESC, Sandro Eduardo Grisa, que demonstra a percepção de seu amadurecimento intelectual na leitura dos clássicos, dentre eles destaca a obra A Riqueza das Nações: “A leitura dos clássicos é como um olhar no espelho, neles eu vejo minha própria evolução intelectual”. Podemos dizer que a leitura de sua obra de economia é indispensável para compreensão do capitalismo, seja para afirmá-lo ou criticá-lo. Mesmo com todas as contradições, Adam Smith ainda não foi inteiramente superado e sua obra continua sendo referência para o estudo da economia política.

PSICANÁLISE

FREUD E O SURGIMENTO DA PSICANÁLISE

Sigmound Freud pode ser considerado o pensador da cultura. Nascido em 06 de Maio de 1856, na Áustria, faleceu em 23 de Setembro de 1939. Filho de pais judeus: Jacob e Analia, Freud ficou conhecido no Brasil pela frase que muitas vezes é utilizada em tom de brincadeira: “Freud explica!”. Na semana que comemoramos o seu falecimento, se faz necessário um tributo ao pensador que mais influenciou a cultura ocidental. Suas mais famosas conclusões sobre o processo de saúde e doença mental deram origem a Psicanálise. Mas Freud não se reteve a escrever apenas sobre o processo de subjetivação, escreveu sobre cultura, sociedade, religião, etc. A pergunta que nos propomos a discutir hoje é: O pensamento freudiano ainda é atual? Não foram poucos os pensadores que desafiaram Freud, elaborando as mais diversas críticas ao seu pensamento. Porém, a teoria freudiana continua encontrando espaço no bojo da sociedade contemporânea. O que nos leva a pensar que Freud ainda não foi superado, que sua teoria ainda responde aos anseios e dramas humanos.
O desenvolvimento da Psicanálise está atrelado a Sigmund Freud, sendo ela a expressão de sua obra. Desde menino demonstrou grande capacidade intelectual. Seu pai era rígido e autoritário, enquanto sua mãe mostrava-se amável e carinhosa. A relação estabelecida com seus pais influenciou sua teoria do Complexo de Édipo. Foi aluno brilhante em Liceu, graduando-se com 17 anos. Tinha grande interesse em estudar relações humanas, civilização, cultura e história militar. Estudou Medicina na Universidade de Viena a partir de 1873. Por querer realizar estudos em outras áreas, fez cinco cursos de filosofia com Brentano. Suas primeiras experiências foram realizadas no campo da biologia, pesquisando o testículo de quatrocentas enguias macho, também pesquisou a medula espinhal de peixes. Realizou ainda experiências com cocaína, usando-a. Chegou a conclusão de que a droga agia de forma positiva sobre a depressão. Nessas experiências Freud ofereceu cocaína a parentes e amigos, acabou sendo responsabilizado por ter disseminado a droga na sociedade, fama que não conseguiu se afastar durante toda a vida. Continuou usando cocaína por aproximadamente 10 anos.
A amizade de Freud com o médico Josej Breuer contribuiu significativamente com o surgimento da Psicanálise. Freud recebeu de Breuer, não apenas conselhos, amizade, mas também dinheiro emprestado. Breuer e Freud discutiam os pacientes, dentre eles Ana O., caso fundamental para o desenvolvimento da Psicanálise. Breuer atendeu Ana O. durante um ano, todos os dias. Dessas consultas concluiu e compartilhou com Freud o fato de usar a hipnose para Ana O. falar sobre suas angustias, percebendo que ao relembrá-las podia diminuir suas aflições ou mesmo esquecê-las. O rompimento da amizade entre ambos se deu diante da compreensão de Freud sobre a dimensão sexual como sendo a única responsável pelos desvios da personalidade, enquanto Breuer entendia como somente uma das causas. Mas foram as pesquisas e discussões que compartilharam que deu origem a Psicanálise.
Freud estabeleceu o chão de onde a psicanálise partiu, compreendendo os fenômenos subjetivos a partir da libido, energia que dá origem a personalidade, a partir da sexualidade. Porém, percebeu diferença entre a dimensão biológica da sexualidade e sua dimensão psíquica, compreendendo que existe algo da sexualidade que não é biológico, portanto, não está relacionado com a reprodução. Nesse sentido, a Psicanálise colocou-se na contramão da ciência positivista, pois estabeleceu um novo princípio, a energia libidinal, instintiva, portanto, inconsciente. A personalidade passou a ser entendida por Freud como possível de se desenvolver a partir do momento em que a criança consegue fantasiar entre o desejo e a satisfação. Dessa forma, a razão não era o princípio para entender a subjetividade e sim o desejo. Partindo dele emerge a fantasia e com ela a personalidade.

OS FUNDAMENTOS DA PERSONALIDADE SEGUNDO FREUD

Antes de discorrer sobre a Psicanálise, devo esclarecer alguns pontos fundamentais, pois a partir da compreensão desses conceitos poderemos compreender melhor o pensamento freudiano. Primeiramente, a Psicanálise entende a estrutura psíquica a partir de duas dimensões: inconsciente, contendo conteúdos reprimidos pela consciência que pode levar a desestrutura da personalidade, acessível nos sonhos; consciência, a estrutura racional, lógica, contendo os pensamentos organizados. Secundariamente, Freud entende que existe um dinamismo de componentes que existem na relação do inconsciente com a consciência, chamados: ID, EGO e SUPER EGO. O ID é a estrutura mais básica da personalidade, representando a libido, na sua maior parte inconsciente. É a partir do ID que a personalidade se forma. EGO está relacionado com a consciência, o Eu de cada um de nós. O SUPER-EGO está relacionado com a moral e se estrutura a partir da cultura e relações sociais de poder.
Quando Freud tentou mostrar que as pulsões da libido ficam numa das estruturas do aparelho psíquico chamado ID, sendo sua maior parte inconsciente, sofreu objeções dos cientistas do século XIX, que se mostraram completamente contrários as suas conclusões.
Assim, Freud fundamentou sua hipótese, da qual não se desviou, apontando a existência de processos mentais inconscientes, os quais apenas deixariam de ser observados, caso algum cientista conseguisse provar que os mesmos não existissem.
Freud classificou as investidas da energia libidinal como sendo de duas formas e em dois momentos distintos. A primeira é completamente instintiva, visa somente à necessidade, nela não há nenhum mecanismo que torna possível à construção da subjetividade. A segunda aparece na transformação da primeira, dando origem à pulsão, não sendo mais apenas necessidade, mas desejo, e a partir do desejo funda-se a estrutura psíquica. O processo dessa construção acontece na medida em que as pulsões inconscientes repetem-se de tal forma que a energia libidinal da psique é vinculada à representação mental, direcionando o impulso para um fim predeterminado, numa catexia estruturante do Ego.
Aqui ainda pode-se observar uma proposta da psicanálise que tenta conciliar-se com a neurociência positivista do final do século XIX. A relação da Psicanálise com a Neurociência existe até os dias atuais. Muitas vezes evidenciam conflitos, outras, convergem conceitos. A discussão do século XIX está no fato de que no entendimento de que o Ego não comporta toda a estrutura da subjetividade, mas apenas uma parte, pois as investidas das pulsões, na maioria das vezes, não se tornam conscientes. Assim, uma quantidade significativa de conteúdo psíquico fica no inconsciente, objeto de estudo da psicanálise.
Na primeira publicação da Enciclopédia Britânica sobre a Psicanálise, Freud comenta o surgimento no contexto científico, explanando-a de forma bastante objetiva, mostrando em que consistia a abordagem psicanalítica. O artigo foi publicado na XI Edição da Encyclopedia Britannica, após a morte de Freud, escrito pelo próprio Freud, porém, modificado o estilo, cuja narração costumeira na primeira pessoa do singular foi substituída por uma narração de comentador, exigida pelo caráter da obra. Algumas considerações devem ser colocadas sobre o texto de Freud, pois segundo a Psicanalista Débora Búrigo1, o texto foi escrito no inicio das reflexões de Freud e abandonado por ele posteriormente, pois percebeu que a psicanálise não poderia coabitar com a ciência positivista. O que deve ser levado em consideração, pois demonstra que na sua evolução, a psicanálise modificou sua visão inicial, porém, o texto pode nos mostrar sua origem, seus conceitos mais básicos e iniciais.



CONCEITOS BÁSICOS DA PSICANÁLISE ENQUANTO PSICOTERAPIA

Freud, inicialmente, considerou que o princípio do prazer submete-se ao princípio da realidade, ou seja, a forma possível de satisfação do desejo, podendo até adiá-lo. A observação do princípio da realidade proposto por Freud, provoca a transferência (Se o prazer não pode ser vivenciado livremente, quando a realidade mostra-se como obstáculo à satisfação, o desejo tem que ser transferido de um objeto a outro), utilizado como mecanismo do processo psicoterapêutico. A transferência do desejo original por outro mais adequado à realidade, da origem a mais famosa dinâmica da estruturação da personalidade observada por Freud, o Complexo de Édipo (Tirado da mitologia grega antiga, em que Édipo mata seu pai sem saber e casa-se com sua mãe também sem saber. Utilizado por Freud para designar a relação do amor do menino com sua mãe). O desejo inicial da criança pela mãe é substituído, na medida em que estrutura-se o Ego, bloqueando as pulsões de desejo constituintes da subjetividade. A criança, ao perceber a impossibilidade da satisfação em relação a pessoa desejada, por conta da moral, transfere o desejo a outra pessoa. Um exemplo é a transferência do amor pela mão para o amor por outra mulher que lhe dê amparo e carinho, pois a transferência evidencia-se quando readequa-se o desejo original, substituindo a forma como o desejo é realizado. Podendo ser encontrada na relação terapêutica, necessariamente como parte indispensável do processo de cura.
A psicanálise entende que o desejo inicial, quando não encontra forma de ser realizado, passa a ser sublimado até poder moldar o desejo para tornar a transferência viabilizada, levando em consideração o princípio de realidade, tornando-se uma psicoterapia que observa esse processo de sublimação e transferência do desejo inicial (Édipo). Encontrando nessa organização do psiquismo e do organismo biológico uma homeostase necessária ao equilíbrio de todas as dimensões do humano, físicas, orgânicas e psíquicas. Nesse sentido, a psicanálise tem como finalidade devolver o equilíbrio que julga ser necessário ao psiquismo, sem o qual pode-se adoecer. Não tendo outra finalidade se não devolver a paz e o equilíbrio interior, curando os desequilíbrios, evidenciados pelo sofrimento dos sujeitos mediante o fluxo de energia libidinal inadequada.

INFLUÊNCIAS DO PENSAMENTO FREUDIANO NA CONTEMPORANEIDADE

Em Setembro de 2008, faz 69 anos da morte do homem que mais influenciou o pensamento ocidental. É difícil encontrar alguém que tenha seu pensamento tão vivo quando Freud. Reich e Jung, apesar das discordâncias, tiveram grande influência do pensamento freudiano. Reich se dedicou a linguagem corporal da personalidade, entendendo a sexualidade como ponto fundamental para compreensão da personalidade. Foi o criador de uma máquina para medir a energia orgástica. Chegou a ser o diretor do Seminário de Terapia Psicanalítica da Sociedade Psicanalítica de Viena entre 1924 a 1930. Mas Reich foi expulso do circulo intelectual psicanalítico por tornar-se comunista e expulso do partido comunista por ser psicanalista. A partir desse momento se distanciou dos psicanalistas e desenvolveu a psicologia corporal, porém de base psicanalítica. Jung, distanciou-se de Reich, ampliando a compreensão de Freud sobre o inconsciente. Sendo que para Freud o inconsciente era encarado como tão somente pessoal, enquanto Jung compreendeu-o como sendo também coletivo, portanto cultural. Desenvolvendo, a partir dessas reflexões uma compreensão da psique numa relação com arquétipos, símbolos e simbologias presentes no inconsciente coletivo, manifestas principalmente nos sonhos. Mesmo discordando do pensamento freudiano, não há dúvidas da importância que Freud teve para Jung. Importância reconhecida pelo próprio Jung na maturidade. Lacan foi a maior expressão da resistência ao reducionismo médico-psiquiátrico da psicanálise no pós-guerra. Para Lacan a Psicanálise não poderia ser reduzida à terapia, mas teria de estar nas discussões filosóficas, na literatura e na busca pela compreensão da sociedade.
A relação da psicanálise com a psiquiatria, deu origem a psicopatologia, enquanto nomenclatura e conceituação. A própria psicoterapia se estruturou a partir das conclusões de Freud. Após a Interpretação dos Sonhos, em 1890, a Psicanálise se espalhou rapidamente. Em 1907 foi fundada a Associação Vienense de Psicanálise e a Sociedade Freud em Zurique. Em menos de seis anos surgiram sociedades psicanalíticas em: Berlim, Budapeste, Londres, Nova York e Boston. Até 1926 foram criadas sociedades psicanalistas na Holanda, Suíça, Russa, Itália e Paris.
O movimento intelectual surrealista da década de 20 e 30 torna-se espaço de divulgação do pensamento freudiano, enquanto Gregory Zilborg divulgava os conceitos psicanalíticos de uma forma mais popular nos EUA. A partir desse momento a Psicanálise podia ser percebida nos romances e filmes americanos.
No Brasil, o pioneiro na divulgação do pensamento psicanalítico foi o médico psiquiátrico Juliano Moreira, professor da Universidade de Medicina da Bahia. Discutia conceitos da psicanálise em suas aulas desde 1899. Em 1929 foi fundada a Sociedade Brasileira de Psicanálise, cujo presidente escolhido foi Juliano Moreira. A mesma sociedade fundada em São Paulo teve como presidente o médico Franco da Rocha, fundador do Hospital Juqueri.
Durval Marcondes foi um grande divulgador do pensamento psicanalítico em São Paulo, concentrando esforços para a formação de psicanalistas no Brasil. Trouxe Adelheid Koch, primeiro psicanalista didático a atuar em solo brasileiro. Julio Porto-Carrero, foi um grande divulgador da teoria e o primeiro brasileiro a atuar como psicanalista.
O Ciclo Psicanalítico da Guanabara, mais tarde chamado de Circo Psicanalítico do Rio de Janeiro iniciou sua primeira turma em 1972, também orientou psicólogos na abordagem psicanalítica. Desde então a formação psicanalítica não para de ganhar novos terapeutas.
Na atualidade a formação psicanalítica está espalhada pelo país, nos institutos de formação e também é oferecida nas universidades, dentro dos cursos de psicologia. E sabemos que a prática continua chamando adeptos em todo Brasil. Significando que a sociedade ainda pode ser explicada pela teoria freudiana. Apesar da tentativa de superá-lo, Freud continua vivo entre nós. O que se pode dizer é que outras teorias emergiram e ganharam espaço por serem consideradas atuais e explicadoras dos fenômenos psíquicos das novas condições humanas no planeta. Mas isso não significa a superação total da psicanálise. Teremos de conviver com Freud ainda durante um bom tempo.