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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O que a Vida Traz

De todos os sentimentos do mundo
De todas as possibilidades da vida
De todos os encontros e desencontros
Dos amores experimentados, cada qual a seu modo
Da mais profunda dor que emerge do abismo da alma
Da maior felicidade percebida na trajetória da vida
Dos amigos encontrados e perdidos
Das faíscas dos sorrisos que vi passar e que não os tornei significativos
Dos sonhos que só fiz sonhar e não os vi realizar
Do medo paralisante que me fez tremer e parar
Do tempo da indecisão, perdido dentro de mim, nos labirintos confusos de meu ser
Das crianças que não vi crescer e a elas não me dediquei
Dos filhos que não vieram e nem os vi partir
Do mundo que gira e traz possibilidades e possibilidades, e eu preso em algumas não vejo tantas outras
De tudo, só resta a certeza de que na vida as coisas escapam dentre nossos dedos sem percebermos
Pois não são nossas, não nos pertencem, a vida as empresta e as tira
As vezes com suavidade, as vezes com voracidade
As vezes, das coisas que a vida tira, algo insiste em ficar
Outras, ficam e não saem, custam nosso sangue, mas não deixamos ir.
E tudo começa num olhar que insiste em ficar
Que pode partir sem sofre, mas também, sem amar.

domingo, 24 de outubro de 2010

Dor

A cabeça dói, o coração não se contem
Ela parece que vai estourar
Ele parece estar sofrendo o golpe de uma faca
Torna-se difícil até mesmo respirar
Falta ar, falta, faca.
Pra sobreviver ele endureceu
Pra poder continuar batendo com uma faca encravada
Fixa, firme e imponente no seu propósito
De ferir meu coração
Que mal pode se mexer, mal pode bater.
Dói dor profunda, dor que não se explica
E vai amargando o doce da alma
Tirando o sorriso, o animo, a alegria, a beleza...
Deixando o espaço vazio, a falta, a faca.
Mas não vou morrer, sinto isso!
Devo, digo devo por ser da ordem do dever e não do desejo
Devo então reunir forças para puxar a faca
Tirá-la de vez.
Mas tenho medo da dor mais profunda
Do sangue coagulado vertendo
Da dor saindo e seu eco soando indo, indo, indo, pra longe
Depois basta.
O tempo se encarrega de tudo.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Perdas

Pairou na atmosfera um ar de impossibilidade

Ar que respiro e pesa sobre mim

Suportá-lo significa lidar com o peso do não realizado

do não vivido tal como havia idealizado

do sonho perdido e não mais encontrado.



Quem sou eu que respira o ar pesado da existência

que sofre a dor da perda do nunca alcançado

do amor que nunca veio, do coração vazio que se via cheio

ao ver no outro o que eu mesmo emprestava para defini-lo

o que eu queria que fosse, o que eu queria ver, o que eu queria ser



Eu aqui que agora experimento o mundo

que sou atravessado por tudo o que não sou eu

percebo que meu sofrimento é outro

não mais com os ideais e amores sonhados

mas com a vida que me convida e o caminho que me desafia



Quem sou eu que desisti de vôos tão altos

que encontro nos passos dados no caminho

mais sentido do que a chegada almejada por tantos

que aprendi que a vida se faz de ação

mais do que de sonhos, mais do que de ilusão.



Eu que amo e já não sonho com amor

que procuro coerência política sem almejar revoluções

que clamo num deserto sem a pretensão de ser ouvido

que faço escolhas sem almejar ser escolhido

que escrevo poesia sem querer ser entendido.

Basta a vida, a minha vida...

É tudo que tenho

domingo, 6 de junho de 2010

Humanidade

Somos todos humanos
mas ainda não sabemos ao certo o que isso significa.
Não sabemos o que defendemos
Não sabemos o quando de humanidade há em cada um de nós.
Sabemos tão somente que nos vemos
Que vemos o quanto perdidos estamos.

O que somos?
Nos colocamos em questão
Esse é o caminho necessário
Redescobrir o que somos em novos tempos
Descobrir nossa humanidade hoje
Atingir-mo-nos mutuamente
Descobri-mo-nos um no outro
Um ao outro.

Nossas vidas colocadas em questão
Nossa conduta feita reflexão
Nosso olhar sobre algo em nós com compaixão
Nossa humanidade resgatada da perdição
Devemos ser Cristos de nós mesmos.

Clama dos porões gelados, geme das entranhas
Tenta emergir do fundo do oceano
Um grito, nem mesmo uma palavra
Um Grito
Escancarado, louco e forte
Tão feroz quanto nossa origem

Tentando mostrar que ainda há humanidade
que nossa metamorfose ainda não a superou
Mesmo que entre software, virtualidades e máquinas
Racionalidade programada, genoma e inteligência artificial
Ainda somos humanos
E somente superaremos essa condição
quando pudermos compreende-la inteiramente
Ai seremos inteiramente objetos de outra reflexão.


Ismael Ferreira

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O tempo como Fardo

A linha do tempo me situa
Entre emoções distintas
Da euforia a melancolia
Vou deixando meus pedaços
Na memória e no esquecimento.

Me perdendo e me achando
Prossigo sem saber ao certo
Em que tempo me encontro
Se futuro, presente ou passado.

Só sei que as emoções se alternam
E a tristeza é inevitável
O mundo é inevitável
O tempo é inevitável
E pesa sobre mim.

Queria eu, pelo menos hoje
Não ter de conviver
Com minha própria memória
Com os pedaços deixado no caminho
Pois eles voltam e pesam estranhamente.

Eu nem sei ao certo o que
Mas algo fez transbordar o copo
E o pior é saber que a última gota
Nada tem haver com toda a água do corpo.

Hoje estou mais triste,
Mas isso passa, tudo passa,
Mas isso retorna, tudo retorna...
Enquanto a linha do tempo me situa
Entre emoções distintas
E nela prossegue a vida.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Mãe

Depois de uma conversa sobre quem poderia dar uma palestra no dia das mães, para as mães dos alunos da escola que trabalho, fiquei a pensar algumas coisas.
Como definir essa palavra, ou melhor, esse papel social “mãe”?
Mãe é um rótulo que envolve nossas mulheres, como se fossem naturalmente destinadas à procriação. Desde pequenas com suas bonecas, com suas casinhas, reproduzindo uma certa lógica cultural necessária.
Moças com seus sonhos e seus presentes de pretendentes, inconscientes.
Ursos de pelúcias, cachorros tão fofos, guiando as candidatas ao parto.
Quanta mágica foi envolvida na “mãe”, o quanto foi exigido desse papel. O quanto de fracasso humano foi direcionado para ausência desse ser mítico.
Essa heroína deprimida e valente, capaz de suportar tudo.
O que sobra para a mulher por trás desse papel social?
É pesado esse fardo, essa cruz.
E hoje nem mais honra há. Mas nossas mulheres sustentam essa ruína prestes a vir a baixo.
A cultura reservou um lugar doentio para mulher viver e a luta reservou um dia para comemorar sua ruptura com essa dor imposta.
Por um lado o dia das mães, e nele toda sociedade reunida e aplaudindo o que lhe é necessário a um custo muito alto para mulher.
Por outro, o dia da mulher como anuncio de sua libertação declarada de nossa cultura machista.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Versos

Versos e inversos
eu verso ao inverso
De trás para a frente
Da ordem para desordem
Do fim para o inicio.

Só não são palavras ao contrário
pois do contrário
não poderiam ser lidas.

Talvez aqui nem mais versos
apenas verso sem estética rítmica
Verso sobre a alma
Esta estranheza posta ao contrário,
contrário de tudo.

Esse nada no mundo
Essa faísca que ilumina
a escuridão profunda
entre o sujeito e o objeto,
o verbo.

Em cada situação
produz um efeito
Agora aqui faz versos.

Que saem do inverso, ao contrário
E essa é minha sentença efêmera
sobre a lógica mundana.

Estão postos no papel
Acessível ao olhar,
Meu olhar,
que retorna a mim mesmo.

terça-feira, 3 de março de 2009

Homem Moderno

Esse sujeito moderno, esse homem que pensa ter alma eterna.

Que desceu do céu, que sua vida foi dada por Deus

E que retornará a ele após cumprir sua missão.

Como se os seus passos fossem programados a priori.

Como se a dádiva divina entregasse a ele sua condição sem luta.

Um ser separado da história do mundo e de sua própria história

Evoca os conceitos mais altos como se fossem seus

Preferindo essa dor celestial, essa ferida sangrando, como se estivesse numa cruz

Esvaindo em sofrimento eterno, vendo sua vida ir junto com seu sangue

Não sabe que sua vida não está prefixada nas estrelas

Que é um ser da terra e não dos céus

Foi seu nojo das coisas baixas que o fez desejar as alturas

Esse sujeito moderno não percebe que é aquilo que nega que o faz ser o que é

Que sua condição mais baixa, concreta e objetiva que produz sua vida

Esse sujeito moderno, culpado, que nega-se, afirmando-se numa razão já estabelecida

Só encontrará sua vida quando abaixar sua cabeça

Quando olhar para si mesmo e perceber que sua vida está posta no chão de sua existência.

Desordem

A poesia é um fracasso, o qual me deleito angustiosamente

São apenas símbolos, signos e significados incompletos num papel

tentativas de materializar a alma, para poder ser percebida.

Nela todo poeta falha, pois seu objetivo nunca é inteiramente alcançado

Pois sempre faltam palavras, evidenciando que alguns sentimentos ainda não foram
codificados, elaborados, para serem materializados.

É o poeta que produz a linguagem, na sua forma mais inicial

Ele é o inventor do símbolo, o inventor do amor

E nessa palavra “amor”, cabe tudo e não cabe nada.

Seu ofício é vasculhar seu ser em busca de si mesmo,

desorganizando na consciência a ordem encontrada na alma

por isso não é entendido, por isso se angustia,

pois tenta encontrar uma forma de explicar o que não tem forma para existir.

Por isso a poesia tenta trazer para razão o que há de mais irracional no homem.

O que a loucura demonstra no surto, o poeta demonstra no papel,

Portanto, lê-la ou escrevê-la, é contrapor-se a organização da consciência.